Onda de violência no Ceará afasta turistas e ocupação hoteleira no estado cai de 85% para 65%

Praia de Iracema é um dos locais mais visitados por turistas em Fortaleza — Foto: TV Verdes Mares/Reprodução

Praia de Iracema é um dos locais mais visitados por turistas em Fortaleza — Foto: TV Verdes Mares/Reprodução

O cancelamento e a remarcação de reservas para hotéis e pousadas do Ceará devido aos ataques que ocorrem em Fortaleza e cidades mais distantes, como Jericoacoara, reduziram os índices de ocupação hoteleira no estado de 85% para 65%, segundo a Associação dos Meios de Hospedagem e Turismo do Ceará (AMHT).

Preparado para receber mais de 1 milhão de turistas nesta alta temporada – dos quais 100 mil são do exterior -, o estado esperava um retorno econômico de R$ 2,9 bilhões, o que deve ser revisto. Além disso, especialistas avaliam que, nos próximos feriados prolongados – como carnaval e Semana Santa -, os efeitos podem ser mais drásticos.

“Alguns turistas cancelaram suas viagens para cá, outras pessoas desistiram de vir, e muitos têm ligado e perguntado como está a situação realmente. Eles ligam para saber. A gente tenta passar para os turistas que esse problema não é na parte litorânea e nem na região hoteleira da cidade, mas as pessoas ligam preocupadas. A nossa ocupação permanece aquém do que foi no ano passado nesse período. Historicamente sempre tivemos uma ocupação muito boa, em torno de 85% e hoje a margem é de 65%”, avalia o presidente da Associação dos Meios de Hospedagem e Turismo do Ceará (AMHT), Aldemir Leite.

Ele acrescenta que no feriado da Semana Santa de 2018 a ocupação foi impactada negativamente por causa da onda de violência no Ceará. Fortaleza duas chacinas entre fevereiro e março, com um total de 21 pessoas mortas.

Desde quarta-feira (2), o Ceará registra 172 ações criminosas, com ataques incendiários a ônibus, prédios públicos e comércio. As forças de segurança prenderam 215 suspeitos, de acordo com André Costa. Um dos presos vendia combustível para criminosos cometerem os ataques e outro imprimia “salve” e “toque de recolher” para criminosos, com ordens para o fechamento do comércio. O estado recebeu apoio da Força Nacional e policiais militares da Bahia e Pernambuco.

Os criminosos tentam fazer com que o Governo do Estado desista da proposta de acabar com celulares nos presídios e não permitir a divisão de presos nas detenções por facção. O secretário da Segurança do Ceará, disse que não vai “recuar um milímetro” das propostas.

Impacto não imediato

Força Nacional reforça a segurança no Ceará após série de ataques criminosos — Foto: Reprodução/DN

Força Nacional reforça a segurança no Ceará após série de ataques criminosos — Foto: Reprodução/DN

Para o professor do departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e do Instituto do Ceará, Eustógio Dantas, os cancelamentos das viagens não é generalizado e os impactos no turismo não são imediatos.

“Acontecem sempre desistências. As pessoas não adentram nesse domínio que suscite insegurança. O turista, grosso modo, quando ele se desloca, busca nesse lugar o conforto similar ao que ele encontra na sua cidade e quer encontrar nesse lugar um certo nível de segurança que permita a ele se deslocar com tranquilidade para os lugares. Comumente é essa expectativa e em função dela existe sempre uma lógica de cancelamento das viagens”, afirma o professor Eustógio Dantas.

Ele diz ainda que na Europa, onde foram recorrentes atentados de autoria do Estado Islâmico, os turismo foi atingido. “Isso não é na totalidade, não é todo mundo que vai cancelar a viagem em função de incidente dessa natureza. O impacto não é tão imediato. Se você dissesse que isso é verdadeiro o fluxo turístico para a Europa teria deixado de existir em função dos atentados do Estado Islâmico. Isso não aconteceu, houve uma redução sim, mas não foi uma redução catastrófica. As pessoas passaram a tomar mais cuidado”, observa.

Guardas municipais escoltam caminhões de lixo em Fortaleza após ataques — Foto: Theyse Viana/Sistema Verdes Mares

Guardas municipais escoltam caminhões de lixo em Fortaleza após ataques — Foto: Theyse Viana/Sistema Verdes Mares

Segundo o professor, os atentados dos últimos dias no Ceará talvez não sejam a preocupação central para o turismo, mas sim a conjugação de elementos. “Uma cidade interessante para o turista é a priori uma cidade interessante para o morador. Talvez essa seja a questão que se apresente. Não é em função do turistas deixar de vir para a cidade que o governo deve investir ações para inibir gêneros de abordagem como essa do crime organizado”, analisa.

“Esse é um problema de fato que se apresenta para a cidade e tem que ser resolvido. A resolução desses problemas que se dão na cidade que afetam a população, elas vão ter desdobramentos mais amplos inclusive trazendo frutos mais propícios para o delineamento de atividades como a turística”, completa.

Perda de turista

Lugares como o Rio de Janeiro já vivenciam episódios de violência, inclusive na zona turística da cidade. Já em outros locais, como em Acapulco, onde nas décadas de 60 e 70 o turismo era uma das principais atividades da região, o governo tenta reverter a imagem desgastada pelo narcotráfico. Fortaleza, em 2018, registrou chacinas e amarga índices como o terceiro estado brasileiro com a maior taxa de assassinatos registrados no primeiro semestre do ano passado, segundo dados do Monitor da Violência.

Força Nacional começa a atuar nas ruas de Fortaleza — Foto: Camila Lima/SVM

Força Nacional começa a atuar nas ruas de Fortaleza — Foto: Camila Lima/SVM

“Existe um setor da polícia que é direcionado para lidar com a temática do turista. Existe uma polícia associada à atividade turística. Existe um cuidado e um trato refinado dos gestores públicos no momento da alta estação, então todas as cidades que se tornaram turísticas acabam de fato adotando esses procedimentos. O que nós falamos no caso de Fortaleza e em outros países e em outros estados como no Rio de Janeiro, quando existem incidentes associados ao crime organizado, é que foge um pouco essa racionalidade, e a resposta é de certa maneira sempre desfavorável aos governos e aos empreendedores que almejam receber um fluxo grande de turistas”, analisa Dantas.

Turismo de compras em queda

Lojas na Avenida Edílson Brasil Soares, em Fortaleza, estão fechadas após ameaça de criminosos — Foto: Paulo Sadat/SVM

Lojas na Avenida Edílson Brasil Soares, em Fortaleza, estão fechadas após ameaça de criminosos — Foto: Paulo Sadat/SVM

Além do turismo de lazer, outro setor que tem registrado queda nas vendas em Fortaleza é o turismo de compras. Conhecida nas regiões Norte e Nordeste como ponto de compras de sacoleiros de outros estados, a capital cearense enfrenta nesta semana cancelamentos de caravanas.

De acordo com permissionários do Centro Fashion, empreendimento do comércio de moda popular no atacado e varejo de Fortaleza, grupos de Sergipe, Pernambuco, Pará, Bahia, Maranhão, Rio Grande do Norte e Tocantins desistiram de vir ao Ceará nesta semana devido ao temor de novos ataques.

O medo dos comerciantes, caso os atentados continuem, é perder mercado para outros estados, como Pernambuco. Em visita nesta quarta-feira (9) ao local, era possível perceber a queda no movimento de consumidores.

“Durante a semana pela manhã vários ônibus ficam estacionados em frente ao Centro Fashion. E hoje não tem nenhum e não tem previsão de chegar. As vendas já caíram cerca de 60% e muitas viagens foram canceladas por causa da situação atual”, afirma uma vendedora, que preferiu não ser identificada.

Reputação do estado

Ônibus incendiado na madrugada desta sexta-feira (4) em Fortaleza — Foto: José Leomar/SVM

Ônibus incendiado na madrugada desta sexta-feira (4) em Fortaleza — Foto: José Leomar/SVM

Para o presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens do Ceará (Abav-CE), Colombo Cialdini, os prejuízos para o turismo cearense são incalculáveis e mancham a reputação do Estado.

“As pessoas estão preocupadas. Isso tudo tem uma repercussão nacional e internacional. É óbvio que essas notícias têm uma agenda negativa, é péssimo para o Ceará em todos os setores. O turismo é impactado sim, e ele tem a prerrogativa fundamental que é a segurança pública. Quem é que quer ir passear, ter um lazer, tirar férias sem segurança pública? Quem já tinha tirado pacote está reavaliando, uma boa parte está vindo acreditando que as coisas devem entrar na ordem. É um prejuízo incalculável para o turismo”, analisa.

O governador do Ceará, Camilo Santana, afirmou que o reforço da segurança deve “garantir a lei a ordem” no estado “nos próximos dias”. “Dobrei o número de agentes penitenciários, e agora no fim do ano tomei a decisão de que era uma área que precisava de uma intervenção mais forte do Estado. A verdade é que temos leis muito frouxas hoje no Brasil. Infelizmente, a polícia prende o bandido, mas ele continua a comandar o crime de dentro do presídio. O que eu estou fazendo é cumprir a lei dentro dos presídios”, disse.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Ceará (ABIH-CE), Eliseu Barros, aparentemente a situação está tranquila nos hotéis de Fortaleza. “Até porque as ocorrências têm sido mais na periferia e no interior do Estado. Nos corredores turísticos, na Avenida Beira-Mar, na Praia do Futuro e no Beach Park, onde ficam os hotéis, está tudo tranquilo. E parece que a coisa está se acalmando. A nossa preocupação é que se continuasse poderia repercutir mais para a frente. Essas pessoas que estão vindo agora já tinham comprado os seus pacotes com antecedência. No momento, o impacto não foi sentido ainda não. A gente só pode saber no futuro”.

De acordo com ele, a ocupação hoteleira nos associados da ABIH-CE está na faixa de 75% a 80%. “Eu diria que poderia ser melhor, mas o motivo de não estar não foram as ocorrências. A gente ainda está analisando isso, mas se a situação se prolongar, eu acredito que possa afetar nossa hospedagem mais para frente”, considera.

Fonte: G1

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